4 de março de 2011

O Renascimento da Wicca


Saudações!
Devido ao debate que tivemos no grupo, decidi repostar este texto.
Boa leitura! Viviane Lopes. 


A Wicca e o Renascimento da Bruxaria Moderna
(Por Asgard Alessandro Melchior)

Com a crucificação do Cristo (?) firmou-se o início de uma nova era na história da humanidade. Após passar por séculos de orientação matrifocal, o culto ao Sol ganhava força e voltava a se impor sobre as sociedades. Antes do Cristo, o culto a Mitras se espalhava por toda a Europa, saindo da Pérsia e atingindo Roma, para daí prosseguir pelos países sob o jugo dos Césares. Na Grécia, Zeus assentava-se sobre o trono olímpico, impondo o patriarcado aos novos tempos. A nova orientação já era conhecida, em Elêusis os Sacerdotes sabiam que turbulências viriam, e em Éfeso Ártemis viu seu templo incendiar-se, nada fez, apenas assistiu passivamente, o fim do culto à Deusa Lua e ao Deus Sol.

O cristianismo se impôs, o islamismo prevaleceu, menos severo o budismo fez sua parte. Estava enterrado o culto ao Divino Feminino e seu Consorte, o Deus de Cornos. Na Gália as "colheitas de Macha" estavam encerradas, o fogo de Vesta se apagava. Brigith transformou-se em Santa Brígida, e Ísis não mais reinava sobre o Egito, o que havia séculos.

Constantino, seguindo os novos ventos, que são eram mais os filhos de Éolo, tomou o cristianismo religião oficial do Império Romano. O cristianismo se propagou na Europa, o islamismo na Ásia, o budismo na Índia. Em cantos diferentes o mesmo acontecia. Muitos inclusive nomes de "respeito" da nossa área costumam ter atitudes negativas em relação a esse processo.

Nós, porém, o vemos como algo necessário à evolução da humanidade, uma experiência importante para que não nos perdêssemos no fim do caminho, preferindo por essa dúvida coletiva antes. A humanidade vivia regida pelos ciclos do Sol e da Lua, o macro pelo Sol, o Deus, o microcosmo pela Lua, a mulher em seu ciclo de 28 dias. Durante essa regência, seguindo a Roda do Ano a sociedade humana experimentou o equilíbrio de estar em harmonia com os fluxos e refluxos dos Cosmos e do Sol, que enviava sua luz à Lua, essa a refletia sobre as obscuras mulheres e à Terra, que eram regidas por esse astro.

A menstruação acompanhava o ciclo lunar, as marés, menstruação da Terra também. Do lado oposto, os homens eram regidos diretamente pelo astro-rei. Ambos realizavam seus cultos em datas específicas, se encontrando quatro vezes durante ciclo solar, de 365 dias. Em cada uma celebravam uma fase do eterno ciclo, o Deus (Sol nascia, atingia a plenitude (equinócios), fecundava a Deusa (Lua) e morria para novamente para renascer (solstícios). A Lua, com suas quatro fases reflete resumidamente esse ciclo solar.

Para nascer é preciso morrer, a humanidade buscou então o fim da era dourada, era necessário conhecer os dissabores do patriarcado. Seguir novos conceitos, entre eles a guerra, a dominação e a força, o Sol se sobrepôs definitivamente através da figura do Cristo. A humanidade perdendo a visão da divindade buscou intermediários para tratar dos assuntos divinos, e pôs o Divino em suas mãos, era hora de buscar novos limites, novos domínios sobre o material. Pôs nas mãos dos clérigos o papel de zelar pelo ego-centrismo, acreditou-se então ser a Terra o centro do universo de Deus, criou Deus onipotente e o Diabo, o que resultasse positivamente era mérito de um, os contratempos culpa do outro. Preferiu renunciar ao raciocínio, era hora de construir riquezas, feudos.

Com o tempo esses próprios clérigos se encarregaram de desmoronar aqueles pilares, a humanidade perde seu alicerce e percebe que não é em Deus como centro do Universo (Teocentrismo) que se deve basear sua existência. O raciocínio e o pensamento ressurgem, o Renascimento desponta e acredita-se na Ciência como nova forma para se tentar entender velhos conflitos: Quem somos? Para onde vamos? De onde viemos?

Novamente entregando as rédeas de sua carruagem a outrem, a humanidade percebe que o método científico é falho, encontra o tronco de "Yggdrasil". Sua raiz, porém, permanece oculta.
Novamente um colapso, do século XIX ao XX os sapiens perdem seu novo alicerce, ressurge então um movimento de resgate de antigas tradições, de quando os deuses ainda viviam entre os homens. Passamos a olhar para trás e vemos adormecidos em velhos túmulos as divindades de outrora, técnicas arcaicas voltam a ser utilizadas, as ervas da mãe natureza voltam a curar, e novos sacerdotes de uma Atlântida já extinta voltam a cantar os velhos hinos, a pira é acesa novamente, e novas bruxas voltam a dançar nos velhos círculos. De novas maneiras, adaptadas ao tempo, as Pitonisas ressuscitam para proferir oráculos que cantam a volta de Zéphiro.

Na Filadélfia, em 15 de agosto de 1824 nasce Charles Leland, que se encarrega de trazer à tona os velhos mistérios da Bruxaria, decifrando símbolos e trazendo à público o que o tempo e algumas organizações haviam protegido durante o tempo que findava. Coube a ele o papel de intermediador entre os guardiães dos Antigos Caminhos e o laico público. 

No século XX surge Gerald Gardner, que da Inglaterra se torna o maior divulgador da Bruxaria Moderna. Em seus escritos, porém, Gardner agrega elementos da Alta Magia, essencialmente complexa em sua liturgia, e que contrastam com a simplicidade e bucolismo do verdadeiro paganismo ancestral. Segundo alguns essas modificações de Gardner derivam da relação que ele mantinha com Aleister Crowley, grande nome do Ocultismo.

O neologismo "Wicca" teria sido criado pelos dois para popularizar a Bruxaria, nome que carregava certa egrégora negativa perante a maior parte da sociedade de então, o que ainda permanece, em nível reduzido, nos dias de hoje.

Na década de 80 aparece Scott Cunninghan, que adiciona conceitos da Nova Era na Bruxaria Moderna. Muitos aspectos do movimento hippie e outros movimentos alternativos foram então mesclados, o que veio a calhar com os novos membros que entravam para a Bruxaria, que em sua maioria provinham da religião católica ou de outras de orientação ortodoxa, e muitos aspectos passaram por transformações e se tornaram mais leves para acomodar esses novos seguidores. 

Não possuindo uma organização centralizada, a Bruxaria abre espaço para a individualidade, o que causa inúmeros contrastes entre seus praticantes, que possuem, como única fonte de informações, em sua maioria, os livros e a internet, que muitas das vezes divulga conteúdos de má qualidade. Nesse processo de resgate e transformação podemos esquecer as raízes, bloqueando o início dos antigos caminhos, tendo em frente apenas uma estrada incompleta a seguir.

Leland como pai da Bruxaria Moderna preservou a simplicidade em sua obra, acreditava na Natureza como único Livro sagrado existente que, assim como o quadro é feito à semelhança do pintor, é feita à semelhança dos criadores, e observando-a podemos ver as leis que regem os deuses, refletidas em sua criação. Leland tentou preservar esses conceitos, que infelizmente estamos "modernizando", esperamos receosos que essa modernização não nos afaste dos antigos caminhos, fazendo com que nos esqueçamos da semente plantada pelos ancestrais.


Texto elaborado por:
Asgard alessandromelchior@yahoo.com.br
Graduando em História Unesp/Franca
Iniciado Wiccano de 1º Grau na Tradição Gardneriana
Iniciado na Tradição Familiar da Stregheria, La Vecchia Religione
Radiestesista, Cromotepeuta e Terapeuta Holístico


(Texto publicado originalmente no aqui no blog Wicca Ipatinga em 2009 e repostado hoje.)